terça-feira, 22 de maio de 2012

311.

Cais em redes que nao sao tuas. Tropeças em escadas que nao foram feitas pelos teus pés. Deambulas entre sombras que são fantasmas pois tens os olhos turvos de lágrimas pelo teu último cigarro, que começou à horas a saber a cinza apagada.
Por entre o cheiro da putrefacção do teu corpo encarcerado num espaço que vandalizaste, deixas-te ficar; sonolento, apaziguado, como fim de tempestade de Outono. Procuras flores mas não estás na estação correcta: é tempo de comer castanhas e tu queres é ver o teu jardim florescer em beijos de papoulas. Não acreditas em mim, mas os teus olhos não são mais castanhos. São algo pertinente, a cor não sei, a forma menos ainda. Só sei que te pegava na mão e te encaminhava para o meu caixão, para te desenhar estrelas nas pálpebras e sonhos nas pestanas. Embalsamava-te, meu amor. Para te carregar na minha cruz, coberta por um véu branco, que roubei à noiva que ardeu na noite passada, por baixo da minha janela do quinto esquerdo.
Era o emblemático final de uma história que mal deixaram crescer, sob o eterno brilho da lua sem razão.


Desculpa tal abanar de mundo, turbulência, efervescência e falta de paciência, quase te acordava do teu cenário apagado, sonolento e vandalizado. Deixo-te ficar, a roer o teu caroço de maçã desprovido de atenção ao que te rodeia. Essa tua figura apagada pensas que te dá dez metros de altura, vinte toneladas de peso e dez quilómetros de diâmetro, para ser louvado por todos os crentes na tua religião. Mas quem conhecia os teus olhos bem sabe, que tal Império é feito de baralhos de cartas e só não caem porque tu criaste a redoma mais ridícula para a proteger, o teu fabuloso e aplaudível ego. E não te abate. Ninguém o abate, porque o colocaste a cima de quem te conheceu, conhece e conhecerá.
Não há mais braços que puxem por ti, para o nosso quadro de família estática, pois tu pintaste a tua ficção e nela fazes peças de teatro, como sempre gostaste; e dialogas com dez amigos diferentes em cada fracção do segundo. Mas eu, que aplaudo enquanto tua esposa tal espectáculo, vejo que onze personagens pertencem todas ao mesmo homem, que és tu. Que já és ninguém. Que pensas que te aplaudes, mas na verdade usas tais mãos para te esborrachar e molestar, como pêndulo desamparado nas cataratas do meu infinito irreal. Sonho.

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