domingo, 25 de março de 2012

300.

A história de um falcão migratório. Que deixou de ser feroz para ser fugaz. E num ápice fechou as asas para ser andorinha. Fugiu para novas estações e achou novos climas. Aí pernoitou dois ou três segundos, até ter coração palpitante por urgir. Cantou e assinalou a sua partida. Outra casa, outro território. Não se fincou em nenhum dos solos que pisou. Em nenhuma das nuvens que cruzou ou em nenhum dente de leão que desmanchou. Já não tinha opulência de ave de rapina nem garras de mesmo. Largou a figura grande, majestosa, para poder entrar novamente na idade dos baloiços e dos gelados. Dos disparates e dos pensos rápidos com dinossauros desenhados.
Não quis mais constuir casa, não era um pássaro arquitecto, engenheiro ou obreiro. Não procurava mais estruturas ou decorações. Nunca vi aves a gostar de fazer torres de cartas, é verdade. Ainda por cima quando exige astúcia, técnica e paciência. Aves foram feitas para girar, rodar danças. Desenhar vento. Encantar cada árvore que poisam e cada esquina que cruzam. Deixar olhos brilhantes em cada pequeno ou graúdo. Não são castores fazendo diques sobre correntes de água.

Não, não.
O zoo que me traga outro animal selvagem. Para me fazer selvagem e eu fazer humano. E juntos darmos o fio de côco em que balança qualquer trapezista desajeitado.

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