Está branca a folha. Insipada e plana à espera das palavras que eu lhe irei derreter. Cravar, vincar, rasgar, lamber, queimar. Procuro os vocábulos indicados para a situação em que estou impregnada. Mas o processo criativo é sempre trabalhoso. Não, trabalhoso não é o termo. É pesado. Agressivo. Violento. Auto-destrutivo. E eu não estou pronta para isso. Não sei se alguma vez estarei, mas sei que não estou pronta. Instável não é o meu chão, quero que o chão se foda. Sou eu! Eu instável. Eu pêndulo. Eu desiquilibrio. Eu queda. Eu bem-eu mal-eu rir-eu choro-eu respiração-eu grito. E perdida em tantos cravos e espigões, impossivel era cair no abismo de escrever-te. Mas eu tinha de. Eu queria ir por aí (“Não vás por aí! Não tens que ir por aí!”). Eu vou, eu tenho de, eu preciso de, é necessário para mim. Porque já sentia saudades das palavras a roerem o meu papel inicialmente puro, precisava da tesão de rasgar em cor e sangue todos os pedaços. Com mentiras, verdades, ilusões, metáforas e criações. Poetizar e enfatizar o que quisesse. Odiar-te, amar-te, odiar-me, amar-me. Fodermos, perto, longe, lançar, partir, quebrar, visceras, ciúme, suor, sal.
Atirar palavras ao ar como foguetes, deixá-las explodir por si, conhecer eu as suas cores e fazer dos outros todos daltónicos. Fazer a minha tela abstraccionista a olho comum, expressionista a mim. Dar um soco no vazio, um tiro nos cornos e um trago de fumo para queimar tudo.
Lavar, coser, falar sem jeito, criar arte incompreensivel e só eu a entender, quando a escrevo. Quando a bato e bato e fundo vai e eu entendo quando bato e depois passa e depois volta e depois já foi. Está dita. Está lembranda, sentenciada e foi pensada, portanto foi feita. Está finalizada a ideia. Lavada, limpa, pura. Cristianizada.
Podes ir para o Céu. Não tu, não eu, nenhum pecado por finalizar nosso. Para o Céu vai a minha história suja de nós. História suja que lavei com carne fresca e quente. Lavei para a sujar mais, para penetrar-me nela, sujar-me com ela e rebolar na nossa merda. E gostar de baixar de nivel, ir bem fundo, deixar de ser eu, deixar de ser homem, mulher, anjo, diabo. Deixar de ser humano, racional, pensante. Ser animal. Animal sujo e instintivo. Levar-te comigo aos calabouços da mente humana. E queimar-nos lá.
Na maior matança, na maior sentença. Na maior fogueira feita, por mim, para ti. É a prenda que te trago neste dia tão especial, para celebrarmos o ínicio. Não do nosso fim, não do teu fim, não do meu fim. Só o inicio, o inicio de alguma merda que eu quis começar hoje com palavras rudes e sujas. Não sei que ínicio, não que fim de quê. Apenas sei que era isto. Esta escarreta diabólica que precisava de expelir, coberta de bilis. Para que tu a pudesses beijar, quando ardesses de saudades minhas.
Mas não ardias. Não sabias acender sequer um fósforo. As chamas era eu. Sem mim, não há saudades.
Não foi nada, não é nada.
Beija os teus pais todos os dias, nunca se sabe quando se morre. E um beijo na morte fica sempre bem, já nos contaram em crianças.
Não me beijes nunca.
Nem na morte.
Nem na vida.
Não.
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